segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Vento Solar

Em 1958, Eugene Parker formulou a teoria do vento solar, cuja única informação observável que ele tinha no momento vinha da observação da cauda dos cometas, que se divide em duas quando se aproxima do Sol. A direção de uma das caudas é oposta à direção de movimento do cometa, e a segunda cauda só poderia ser explicada se existisse alguma coisa fluindo a partir do Sol. 

Parker, desenvolveu sua teoria, baseado no fato de que a coroa solar possui uma temperatura de milhões de Kelvin. Ele argumentou que a densidade de elétrons e a pressão nessa atmosfera extremamente quente diminui lentamente, e a pressão longe do Sol são ordens de magnitude maior que a pressão do gás interstelar em torno do sistema solar. De acordo com Parker, esse desequilíbrio entre a pressão da coroa solar e do meio interstelar local levaria a uma expansão do gás coronal com uma velocidade supersônica.

Anos mais tarde, a teoria de Parker foi verificada experimentalmente através de observações in situ pelos satélites Soviéticos e Americanos. Em seu caminho para Vênus, em 1962, o satélite MARINER II observou o vento solar por 104 dias, e a velocidade de fluido média era mais de 500 km/s. Essa observação mostrou que o plasma coronal expande-se com uma velocidade supersônica, exatamente como Parker previu em 1958. Até hoje, através dos satélites mais modernos já lançados, a teoria de Parker mostra-se consistente.

O vento solar é a principal ligação entre o Sol e a Terra, pois é através dele que as estruturas solares viajam até atingir o meio ambiente terrestre, causando os efeitos típicos do Clima Espacial. A Figura 1 mostra uma representação esquemática da relação Sol-Meio Interplanetário-Magnetosfera Terrestre através do Vento Solar. O vento solar inclusive define o formato da magnetosfera terrestre, comprimindo-a na parte da frente ( direcionada para o Sol) e estendendo-a no lado noturno da Terra, formando uma cauda.


Figura 1: Representação esquemática da relação Sol-Meio Interplanetário-Magnetosfera Terrestre, através do Vento Solar (FONTE: http://www.astronomygcse.co.uk/AstroGCSE/New%20Site/Topic%201/sun/solar_wind.htm).

Outro fato importante que está representado na Figura 1, através das 6 linhas brancas, que saem do Sol e se dividem na frente da magnetosfera terrestre, três na parte superior e três na parte inferior da magnetosfera. Essa representação mostra que o vento solar não se mistura com o plasma da magnetosfera. O campo magnético terrestre forma uma espécie de "bolha" imersa no vento solar, nos protegendo da ação dessas partículas.

A mistura entre o vento solar e o plasma magnetosférico ocorre somente quando o vento solar carrega consigo uma estrutura com campo magnético intenso e com uma substancial componente direcionada para baixo (componente do campo magnético Sul). Essa componente Sul, interage com o campo magnético da Terra, que é direcionado para cima (componente Norte), causando o fenômeno conhecido como Reconexão Magnética. Quando esse fenômeno ocorre, as partículas do vento solar conseguem penetrar no campo magnético terrestre causando o que chamamos de Tempestades Geomagnéticas. As tempestades geomagnéticas são os principais fenômenos do Clima Espacial e devido à sua importância, receberão um post mais adiante.

O vento solar expande-se até que o balanço de pressão entre a coroa solar e o meio interstelar fica balanceado, e isso acorre em aproximadamente 100 vezes a distância entre o Sol e a Terra. Essa distância será comprovada pelo satélite Voyager I que cruzou o limite do vento solar, chamado de choque terminal, e está adentrando no meio interplanetário. esse fato foi amplamente divulgado na mídia, inclusive eu reproduzi uma reportagem aqui no blog no dia 14 de setembro de 2013, cujo título do post é Voyager1 já vaga entre as estrelas.

Isso tudo mostra a importância de estudarmos e entendermos bem o vento solar e as estruturas que viajam através dele, pois essas estruturas podem causar sérios efeitos em nossos sistemas tecnológicos, dos quais dependemos cada dia mais.

Nos próximos posts falarei um pouco sobre as estruturas solares e quais são as principais consequências dessas estruturas ao atingirem a magnetosfera terrestre.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Partículas Energéticas Solares - Solar Energetic Particles - SEPs

No post Explosões Solares, escrevi sucintamente sobre as explosões solares, que são eventos impulsivos com liberação de grande quantidade de energia e radiação em quase todos os comprimentos de onda do espectro eletromagnético. Essa radiação eletromagnética demora aproximadamente 8 minutos até atingir a Terra, pois viaja com a velocidade da luz.

Juntamente com essa radiação, também são ejetadas partículas (prótons, elétrons e íons mais pesados), que demoram mais tempo que a radiação eletromagnética (as partículas mais rápidas podem alcançar velocidade de até 80% da velocidade da luz).

Essas partículas são muito mais prejudiciais aos satélites do que a radiação eletromagnética, pois elas podem depositar energia danificando os componentes eletrônicos dos instrumentos a bordo dos satélites, que não estão protegidos pelo campo magnético da Terra, estando completamente expostos à ação dessas partículas. Astronautas também podem ser atingidos por essas partículas, em especial partículas com energia maior que 40 MeV podem inclusive matar um astronauta desprotegido.

Os eventos de SEP são detectados pelo satélite ACE, cujos dados estão apresentados na Figura 1, mostrando a detecção dessas partículas energéticas de origem solar. Podemos perceber um súbito aumento nas contagens de prótons no dia 11 de abril de 2013, em todas as energias detectadas pelos instrumentos do satélite ACE.


Figura 1: Dados do fluxo de prótons obtidos pelo satélite ACE em diferentes faixas de energias.


Existem dois tipos de eventos de partículas energéticas solares:

  • Os eventos graduais possuem a duração de alguns dias, são ricos em prótons e possuem, em média, a mesma composição de elementos e estados de ionização do plasma coronal. Estão associados com explosões graduais de Raios-X e radio-emissões tipos II e IV. Esses eventos são observados em várias localidades distintas;
  • Os eventos impulsivos são de curta duração e somente são observados em locais "magneticamente conectados" com o Sol, ou seja, em locais onde as linhas do campo magnético solar são aproximadamente verticais. São ricos em elétrons e estão associados com explosões de Raios-X  e H-Alfa impulsivas.
Sei que é difícil para a maioria das pessoas entenderem os fenômenos, principalmente para quem não está acostumado com a nomenclatura. Para um melhor entendimento, sugiro que os leitores consultem um glossário de termos técnicos da área de Física da Relação Sol-Terra e Clima Espacial que está disponível no seguinte link - http://www2.inpe.br/climaespacial/pt/glossario/index.

Mais uma vez, graças ao campo magnético e à atmosfera terrestre, estamos protegidos dessas partículas.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Explosões Solares

As explosões solares são os fenômenos que mais assustam as pessoas. Muitas reportagens e documentários dizem que "a vida na Terra pode ser banida por causa de explosões solares". Antes de tirar conclusões baseadas nessas reportagens e documentários, devemos conhecer os fenômenos envolvidos para sabermos se é realmente possível que aconteça ou é apenas uma probabilidade estatística.

Uma explosão solar pode ser observada de diversas formas. Na superfície terrestre, as explosões solares podem ser observadas a partir das ondas eletromagnéticas geradas na explosão, chamadas de "solar burts", detectadas por radio-espectrógrafos e rádio-interferômetros. Esses instrumentos medem ondas métricas e decimétricas de rádio, emitidas durante uma explosão solar.  No Brasil existem o BSS (“Brazilian Solar Spectroscope”) (Fernandes, 1992; 1997; Sawant et al., 2001), o BDA (“Brazilian Decimetric Array”) (Sawant et al., 2003) e o CALLISTO (“Compound Astronomical Low frequency Low cost Instrument for Spectroscopy and Transportable Observatory”) (Benz et al., 2005). A figura abaixo apresenta um exemplo do espectro dinâmico gerado pelo CALLISTO-BR, mostrando um evento de explosão solar, que pode ser observada através da emissão Tipo III (Rafael D. C Silva, 2012).



As outras formas de observar explosões solares é através de dados de satélite. Além das ondas de rádio emitidas durante uma explosão solar, também são emitidos raios-x, que são detectados pelo satélite GOES 8. Com isso podemos fazer um gráfico de raios-x e identificar o momento em que essa radiação foi emitida pelo Sol. A Figura 3 mostra um gráfico de raios-x do satélite GOES 18, de 31 de dezembro de 2023 até 07 de janeiro de 2024. Podemos observar que, no dia 31 de dezembro de 2013 houve uma explosão solar classificada como sendo da classe X, que é a classe mais intensa das explosões, no dia 01 de janeiro houve 2 explosões classe M, e mais duas explosões da classe M, uma no dia 02 de janeiro e a outra no início do dia 04 de janeiro de 2024.


Figura 3: Dados do satélite GOES 18 mostrando uma série de 
explosões solares ocorridas em janeiro de 2024.
FONTE: https://www.swpc.noaa.gov/products/goes-x-ray-flux

Satélites modernos como "SOlar and Heliospheric Observatory" (SOHO - http://soho.nascom.nasa.gov/data/realtime-images.html) e "Solar Dynamic Observatory" (SDO - http://sdo.gsfc.nasa.gov/data/) fazem imagens do Sol, nas quais podemos eventualmente observar uma explosão solar, como mostram as Figuras 4 e 5.



Figura 4: Explosão Solar observada pelo satélite Soho


Figura 5: Explosão Solar observada pelo satélite SDO

A dinâmica magnética solar que gera es explosões solares são bastante complexas e fogem ao escopo do blog, mas digo para não se preocupem, pois nossas vidas estão salvas na Terra, e o campo magnético terrestre nos protege das partículas emitidas pelo Sol durante uma explosão solar. O que podemos fazer é admirar o belíssimo espetáculo que essas partículas solares podem nos proporcionar que são as auroras, que infelizmente não são observadas no Brasil.




Referências:

- Benz, A.O.; Monstein, C.; Meyer, H., CALLISTO - A New Concept for Solar Radio Spectrometers, Sol. Phys., V.226, p.143-151, 2005. 
- Fernandes, F.C.R., Dissertação de Mestrado, INPE, 1992.
- Fernandes, F.C.R., Tese de Doutorado, INPE, 1997.
- Rafael D.C. Silva, Caius L. Selhost, Francisco C.R. Fernandes, O espectrografo CALLISTO-BR e as investigações de emissões solares em ondas métricas, Encontro Latino Americano de Pós Graduação, Universidade do Vale do Paraíba, 2012.
- Sawant, H.S.; Subramanian, K.R.; Faria, C.; Fernandes, F.C.R.; Sobral, J.H.A.; Cecatto, J.R.; Rosa, R.R.; Vats, H.O.; Neri, J.A.C.F.; Alonso, E.M.B.; Mesquita, F.P.V.; Portezani, V.A.; Martinon, A.R.F., Solar Phys., V.200, n.1/2, p.167-176, 2001.
- Sawant, H.S.; BDA TEAM, INPE-13051RPI/252, 2005.
- https://www.swpc.noaa.gov/products/goes-x-ray-flux, acessada em 06 de janeiro de 2024;



sábado, 14 de setembro de 2013

Voyager 1 já vaga entre as estrelas

Sabendo da importância do fato, abro espaço para notícia publicada no Jornal da Ciência de 13 de setembro de 2013. Celebremos todos esse grande passo da humanidade, como segue:

JC e-mail 4812, de 13 de Setembro de 2013.

13. Voyager 1 já vaga entre as estrelas
 
Análise de novos dados leva comitê de cientistas da Nasa a anunciar oficialmente que nave finalmente deixou o Sistema Solar e está no espaço interestelar


Agora é oficial: lançada pela Nasa há 36 anos, a sonda Voyager 1 realmente saiu da heliosfera, a zona de influência do campo magnético do Sol, em agosto do ano passado e é o primeiro objeto feito pela Humanidade a vagar pelo espaço interestelar. Depois de anos de expectativa e diversos sinais de que a nave estava na fronteira do Sistema Solar, análise de dados sobre a densidade do plasma em torno dela, publicada na edição desta semana da revista "Science", era o que faltava para que o comitê de cientistas responsáveis pela missão finalmente concordasse que a histórica passagem de fato ocorreu.

- Agora que temos estes novos e importantes dados, acreditamos que este é o histórico salto da Humanidade rumo ao espaço interestelar - afirmou Edward Stone, cientista-chefe da missão e professor do Instituto de Tecnologia da Califórnia, que em entrevista a O GLOBO em junho último destacou que caberia a ele e ao comitê a decisão final sobre o assunto. - A equipe da Voyager precisava de tempo para analisar estas observações e entendê-las, mas agora podemos responder à questão que todos ficamos nos perguntando: "já chegamos lá?". Sim, chegamos.

Os sinais de que a sonda estava prestes a cruzar a fronteira do espaço interestelar, a cerca de 18,5 bilhões de quilômetros do Sol, começaram a chegar em 2004, quando seus instrumentos mostraram que ela tinha passado pela zona terminal da heliosfera (conhecida como termination shock em inglês) e entrado na chamada heliopausa, a última camada da zona de influência do campo magnético do Sol. Desde então, eles registram um forte aumento no número de raios cósmicos altamente energéticos vindos de fora do Sistema Solar, ao mesmo tempo que observam uma constante queda na quantidade de partículas carregadas provenientes do Sol, dois dos principais sinais que os cientistas esperavam para confirmar a passagem. Mas ainda faltava um terceiro, uma mudança abrupta na direção do campo magnético em torno da Voyager 1.

E apesar deste último sinal ainda não ter sido detectado, os novos dados sobre a densidade de plasma serviram como indicação final para que os cientistas da Nasa chegassem a um consenso sobre a posição da Voyager 1. Em um recente estudo publicado no periódico "The Astrophysical Journal Letters", pesquisadores criaram um modelo para explicar a conexão dos campos magnéticos do Sol e do espaço interestelar na heliopausa, propondo que as mudanças detectadas na quantidade de partículas carregadas em torno da nave eram "assinaturas" deste mecanismo.

Diante disso, Don Gurnett, cientista responsável pelo sensor de ondas de plasma da sonda, e sua equipe na Universidade de Iowa decidiram analisar as oscilações que ainda podem ser detectadas pelas longas antenas do instrumento - que deixou de funcionar propriamente ainda na década de 80 - em conjunção com dados do magnetômetro da nave entre 9 de abril e 22 de maio deste ano. Eles descobriram então que a Voyager 1 estava numa região do espaço em que a densidade de elétrons em torno dela ficava em 0,08 por centímetro cúbico, em linha com as previsões do modelo de que no meio interestelar ela deveria ser entre 0,05 e 0,22 por centímetro cúbico, muito acima das encontradas dentro da heliosfera ou na heliopausa.

Mas a análise não parou por aí. Gurnett e equipe também revisaram observações mais antigas, identificando outro intervalo onde as oscilações eram similares às registradas este ano no período entre 23 de outubro e 27 de novembro de 2012. Eles calcularam que então a densidade de elétrons em torno da nave era de 0,06 por centímetro cúbico, indicando que houve uma leve elevação no espaço entre as duas medições.

- Literalmente pulamos de nossas cadeiras quando vimos estas oscilações em nossos dados, pois eles mostravam que a nave estava em uma região inteiramente nova, comparável ao que era esperado para o espaço interestelar e totalmente diferente da dentro da "bolha" do Sol - lembrou. - Claramente havíamos passado pela heliopausa, a hipotética fronteira entre o plasma solar e o interestelar, provavelmente em agosto de 2012.

Por fim, Gurnett e seus colegas usaram outro artigo publicado pelo cientista na própria "Science" em 1993 no qual ele aproveitou uma série de intensas erupções solares para estudar a heliosfera. Então, 400 dias depois das tempestades solares, eles detectaram o eco de rádio da colisão das ondas de choque das erupções com a heliopausa, a uma distância estimada entre 116 e 117 unidades astronômicas (cerca de 150 milhões de quilômetros cada) na faixa de 2 kilohertz. Voltando aos dados mais recentes da Voyager 1, os cientistas procuraram por reverberações na densidade de plasma que também fossem de 2 kilohertz. E estas reverberações coincidiram com as medições de outros detectores da nave feitas em 25 de agosto de 2012 que mostraram um forte aumento no número de raios cósmicos altamente energéticos vindos de fora do Sistema Solar e grande queda na quantidade de partículas carregadas provenientes do Sol, os dois sinais da partida da Voyager 1 do Sistema Solar que já tinham sido detectados.

- A Voyager audaciosamente foi onde nenhuma outra sonda jamais foi antes, marcando um dos maiores feitos tecnológicos nos anais da História da ciência e, ao entrar no espaço interestelar, escreve um novo capítulo nas realizações e empreendimentos científicos da Humanidade - comemorou John Grunsfeld, diretor de Ciência da Nasa. - Talvez no futuro exploradores do espaço profundo alcancem a Voyager, nossa primeira embaixadora interestelar, e reflitam como essa intrépida nave espacial permitiu abriu as portas para seu futuro.

Vale lembrar que embora tenha deixado a heliosfera para trás e entrado no espaço interestelar, a Voyager 1 ainda não está verdadeiramente fora do Sistema Solar no sentido mais restrito do termo. Isso porque a maioria dos cientistas concorda que o Sistema Solar em sua acepção mais ampla só termina na chamada Nuvem de Oort, aglomerado de bolas de gelo, gases congelados e rochas espaciais que orbita o Sol a cerca de um ano-luz de distância e de onde se originam os cometas. A nuvem marca o fim da zona de predominância da gravidade de nossa estrela, isto é, onde ela começa a perder o "cabo de guerra" com a gravidade das demais estrelas da Via Láctea. A Voyager 1 só deverá alcançar a parte interna da Nuvem de Oort daqui a aproximadamente 300 anos e a expectativa é que só a deixe em 30 mil anos. Já daqui a 40 mil anos a sonda vai passar relativamente perto (1,7 ano-luz) da estrela conhecida como AC +79 3888, sofrendo um novo puxão gravitacional que deverá colocá-la em uma órbita em torno do centro de nossa galáxia onde vai vagar pelo resto da eternidade do Universo.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

O Sol

O Sol é o "motor" de toda Heliosfera, região onde o processos dinâmicos são dominados pelo Sol. Mais a frente escreverei sobre a Heliosfera e suas características dinâmicas, hoje vou falar especificamente sobre o Sol.

Essa estrela é composta de hidrogênio, hélio e alguns elementos mais pesados, e sua energia, que é fundamental para a vida na Terra, é gerada no processo de fusão - reação nuclear que libera uma grande quantidade de energia - dos átomos de hidrogênio, formando os átomos de hélio, no núcleo solar.

O Sol não é um corpo sólido, ele é composto de plasma, que trata-se de um gás ionizado mas com igual número de elementos com cargas elétricas positiva e negativa, e por isso, possui diferentes velocidades de rotação, sendo mais rápida no equador que nos polos. Essa rotação diferencial, juntamente com uma propriedade de plasmas altamente condutores, como é o caso do Sol, faz com que o campo magnético gerado por ele esteja "congelado" no plasma, isso é, o plasma ao se mover carrega o campo magnético consigo. Dessa forma, as linhas do campo magnético solar se torcem a medida que o tempo passa, como pode ser visto na Figura 1 (http://physics.uoregon.edu/~jimbrau/BrauImNew/Chap16/FG16_21.jpg).

Figura 1: Comportamento das linhas de campo magnético solar em seu interior, a medida que o tempo passa e o plasma rotaciona com diferentes velocidades desde o equador até os polos.

Em um dado momento, a tensão magnética é tanta que pequenas porções das linhas de campo atravessam a superfície solar, gerando um alto fluxo magnético. Essas regiões aparecem na superfície solar como manchas escuras, pois sua temperatura é menos que sua vizinhança, e são chamadas de Manchas Solares. A Figura 2 mostra dois grupos de manchas solares que estão visíveis no disco solar (http://sdo.gsfc.nasa.gov/data/).


Figura 2: Grupos de manchas solares visíveis no disco solar.


A contagem das manchas solares define o que chamamos de ciclo de atividade solar. Esse ciclo tem 11 anos em média e o gráfico no número de manchas solares em função do tempo, pode ser visto na Figura 3, onde foi feita uma composição mostrando o ciclo solar desde 1750 até os dias de hoje (painel de cima) e um zoom mostrando o atual e os dois cicloas anteriores, desde 2000 até hoje (painel de baixo), que corresponde ao retângulo preto no gráfico do painel da esquerda.



Figura 3: Composição de gráficos do número de manchas solares, mostrando o ciclo de atividade solar.
O painel de cima mostra o ciclo deste 1750, e o painel de baixo mosta o atual e os dois ciclos anteriores. FONTE:  https://www.swpc.noaa.gov/products/solar-cycle-progression

Quando o número de manchas solares é mínimo, temos a fase de mínima atividade solar. Nessa fase o Sol está calmo, já na fase de máxima atividade, quando o número de manchas solares é máximo, o Sol está extremamente ativo, podendo ter várias explosões e ejeções por dia.

Todos os processos dinâmicos que ocorrem na Heliosfera seguem esse ciclo de atividade do Sol. É claro que o Sol possui inúmeras características dinâmicas, que não cabem em um único post. Pretendo discutir mais a fundo cada uma dessas características no posts seguintes.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Sol e Terra: relação íntima

Tenho visto um grande número de reportagens falando do Sol e de sua relação com a Terra. É inegável que essa relação é extremamente importante, pois se não fosse o Sol, não existiria vida na Terra. Além disso, existe uma relação entre o Sol e a Terra que não é muito conhecida, mas está sendo divulgada cada vez mais na mídia.

O Sol é uma estrela extremamente ativa e dinâmica. O principal indicador de sua atividade é o número de Manchas Solares, que são regiões escuras que aparecem na superfície do Sol. Elas são escuras porque existe um intenso campo magnético fazendo que partículas fluam através delas. Com isso, nessa região a temperatura é menor que na vizinhança, aparecendo escura. Na fase de máxima atividade solar, o campo magnético do Sol está bastante distorcido, apresentando um grande número de manchas solares, já na fase de mínima atividade solar, o campo está mais comportado, apresentando um pequeno número ou mesmo nenhuma mancha solar. Essas fazes de atividade solar (máxima e mínima) duram aproximadamente 11 anos, formando o bem conhecido ciclo de atividade solar.

Durante a fase de máxima atividade solar, fase em que estamos nesse momento, as explosões solares ocorrem com maior frequência. Isso significa que mais radiação do tipo raios-x e partículas de alta energia são ejetadas, atingindo a Terra. Além disso, o próprio material solar, na forma de uma nuvem de plasma (Ejeção de Massa Coronal - "Coronal Mass Ejection" - CME), também é ejetado com maior frequência nesse período, e podem eventualmente atingir a Terra. Felizmente a Terra possui um campo magnético intrínseco que nos protege dessas partículas solares.




Quando uma CME atinge a Terra, ela não passa despercebida, pois ela causa uma perturbação no campo magnético terrestre. Essa perturbação é conhecida como Tempestade Geomagnética, que pode ser: Moderada, Intensa ou Superintensa, dependendo da força da CME, ou seja, dependendo da intensidade do campo magnético e da velocidade dessa estrutura. As tempestades geomagnéticos podem ser causadas por outros tipos de estruturas solares, que vou deixar para escrever em um outro post.

Apesar dessas estruturas causarem tempestades considerada superintensas, elas raramente terão alguma influência direta na saúde das pessoas, de forma indireta, nossas vidas podem ser "atingidas", pois essas partículas energéticas podem danificar satélites que, hoje em dia, são vitais para nossas vidas. Na superfície da Terra, essas tempestades podem gerar correntes elétricas induzidas em linhas de transmissão, queimando transformadores em subestações, deixando grandes áreas sem energia elétrica. Os equipamentos que dependem de GPS podem perder o sinal comprometendo sua precisão.

Essas estruturas são amplamente estudadas pela comunidade científica numa área das ciências espaciais, chamada de Clima Espacial. Esse nome foi dado fazendo-se uma analogia com o clima atmosférico. No Brasil, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, em colaboração com outras universidades brasileiras e estrangeira (http://www.inpe.br/climaespacial/), estudam as estruturas solares e estão trabalhando para gerar ferramentas que possam prever as tempestades geomagnéticas, assim como as tempestades atmosféricas são previstas.

domingo, 2 de junho de 2013

Brasil, país cientificamente privilegiado

O Brasil é um país privilegiado em vários aspectos: mesmo com seu tamanho continental, está localizado sobre uma placa tectônica, e por esse motivo não sofremos com terremotos frequentes de grandes intensidades nem com atividade vulcânica; nosso relevo, fauna e flora são riquíssimos e diversificados, formando um meio ambiente único no mundo.

Outro campo que faz o Brasil único é seu povo, descendendo de indígenas locais, dos colonos portugueses, de imigrantes europeus, de africanos, latino-americanos, japoneses, enfim, o povo brasileiro tem influência de todas as partes do mundo.

Na área de ciências espaciais o Brasil não é diferente, possui características únicas que faz com que cientistas do mundo inteiro queiram estudar essas particularidades. Nosso país é cortado pelo equador magnético, gerando uma série de particularidades na atmosfera superior, e na ionosfera (camada da atmosfera rica em íons e elétrons livres).

O campo magnético da Terra possui uma particularidade, existe uma região onde a intensidade do campo é a menor de todo o planeta. Adivinhem onde fica essa região? No Brasil! Na verdade a maior parte dessa região se encontra em território brasileiro, mas como o campo geomagnético não é estático, o centro da Anomalia Magnética da América do Sul (AMAS), desloca-se para oeste e já deixou o Brasil.

A maior implicação, quanto a existência dessa anomalia, é que partículas de baixas energias que estão aprisionadas no campo geomagnético podem precipitar na atmosfera, aumentando o fluxo dessas partículas. Essa maior precipitação pode afetar tripulações que voam regularmente nessa região, assim como ocorre nas regiões dos polos geomagnéticos.

Nós brasileiros temos que ter consciência de que nosso país é único e depende somente de nós mesmos para o desenvolver. Muitos cientistas estrangeiros querem vir para o Brasil e desenvolver seus estudos nas mais diversas áreas, nós temos toda essa diversidade no quintal de casa e temos que aproveitá-la.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Conhecimento Científico versus Senso Comum

A palavra ciência tem origem no latim (scientia), cujo significado é conhecimento. Em termos mais gerais a ciência é o conjunto de ações tomadas, seguindo um conjunto de regras básicas, para gerar o conhecimento científico. A esse conjunto de regras, chamamos de Metodologia Científica.

Nem todo conhecimento pode ser considerado científico, pois muitos conceitos e definições que formamos são frutos de nossas experiências do dia-a-dia, segundo nossas crenças e interpretações previamente estabelecidas. Esse conhecimento desenvolvido a partir de nosso cotidiano, sem levar em consideração o rigor da metodologia científica, é conhecido como Senso Comum.

Isso não significa que o conhecomento científico seja a verdade absoluta e que o senso comum não deva ser utilizado. Muitas descobertas cientificas surgiram a partir do conhecimento do senso comum, pois a ciência pode explicar o que o senso comum não consegue. 

Temos sempre que ter em mente que tudo o que sabemos é fruto de nosso aprendizado, e nossa primeira escola é o nosso lar. Nossos pais são nossos primeiros professores e é com eles que aprendemos as primeiras lições, que muitas vezes são originadas no senso comum. Portanto, esse conhecimento foi fruto das experiências que nossos pais vivenciaram, na cidade onde eles moravam, na época em que eles viveram tais situações, juntamente com o conhecimento que eles receberam na escola. É na escola que aprendemos as lições advindas do conhecimento científico.

É bastante difícil separar esses dois tipos de conhecimento, pois o que sabemos, e consequentemente o que somos, é fruto de todas as experiências que vivemos, e tanto o conhecimento científico, quanto o senso comum se confundem, além de um ter grande influência sobre o outro. É preciso identificar essas duas vertentes de conhecimento para podermos sempre melhorar o aprendizado. O conhecimento científico deve sempre ser utilizado para aprimorarmos o senso comum sem  perdermos a consciência de que o conhecimento científico não é a verdade absoluta, mas ele foi desenvolvido através de experimentação, utilizando todo rigor do método científico.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Primeiros Passos

Nesse espaço eu gostaria de dividir minhas experiências em ciência. Como é prazeroso e ao mesmo tempo muito difícil e trabalhoso gerar conhecimento. Apesar de muitos questionarem a importância e o dinheiro que é gasto com a ciência básica, ela é de fundamental importância, pois é a partir do conhecimento desenvolvido que as mais modernas técnicas, materiais, máquinas, etc, são desenvolvidas.
Tão importante quanto gerar conhecimento, é divulgar esse conhecimento, fazendo com que todas as pessoas tenham acesso e entendam o que os cientistas estão desenvolvendo.  Nos próximos posts, pretendo escrever um pouco do meu trabalho, em que utilizo dados de raios cósmicos para estudar o meio ambiente entre o Sol e a Terra. Cientistas brasileiros, vamos compartilhar nossas experiências e mostrar para todos que ciência não é só coisa de cientista, é um benefício para todos.